Cara de Paisagem
- Sonia Rodrigues
- 14 de abr. de 2019
- 2 min de leitura

O Leo Aversa, em crônica de 12/04, contou de uma ex-namorada um pouco intensa, autocentrada e apaixonada pelo som da própria voz. Ele deve ter inventado essa personagem, porque se essa mulher existir (e vestir a carapuça) já deve estar espalhando no Facebook os defeitos que ele tem.
Mas isso não vem ao caso. Afinal, escritores estão na chuva é para se molhar.
O que me interessa aqui é que a terapêutica que ele indica para pessoas como a ex-namorada é a também conhecida “fazer cara de paisagem”.
A pessoa está indignada, entusiasmada, envolta em suas próprias dores, alegrias, convicções? A cara de paisagem não diz “pois é/um absurdo” como o Leo Aversa recomenda. Fica olhando com expressão plácida até o outro perder completamente o gás.
O que o pessoal que faz cara de paisagem não percebe é que as pessoas intensas falam sobre “coisas” e elas só falam sobre o tempo e a condição das estradas (Jane Austen: Razão e Sensibilidade, Sonia Rodrigues também é cultura). Quando não ficam pregando para os convertidos, os iguais, os que concordam com elas.
Não interagir com as pessoas e vender a imagem de que é bacana porque não contesta me parece uma atitude... estranha. Parece que a pessoa que se faz de legal está... menosprezando a outra. “Você não é inteligente o bastante para eu lhe contestar”. “Você não tem autocontrole suficiente para ouvir minha opinião a respeito”. “Eu sou uma pessoa chique, não perco meu tempo reagindo a você”.
Não seria mais digno, mais adulto manifestar espanto, concordância, desacordo pelo menos uma vez? É claro que a pessoa intensa pode ser alguém que precisa ser medicada (como os malas citados por Aversa: motoristas terraplanistas, tio reacionário, sobrinho extremista e fanáticos religiosos). Aí não tem jeito. É encerrar a corrida, mudar de assunto ou evitar convites.
Pelo sim, pelo não, tenho evitado ser intensa com pessoas que se acham Zen, mas são niilistas. E evitado muito contato com os que estão intensos e não admitem medicação. O mundo está complicado ou é só o meu cantinho?
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