Diário da Peste 22
- Sonia Rodrigues
- 13 de abr. de 2020
- 2 min de leitura
Ambiguidade. Responsabilidade X Culpa. É difícil assumir as consequências da ambiguidade.
Um comportamento que magoa, fere, põe a pessoa para baixo. Quem é responsável? Quem maltrata ou quem fica ali, dia após dia sendo maltratado?
Lidamos o tempo todo com a falta de responsabilidade das pessoas frente ao erro. Durante a Peste, isso ficou pior. Antes, a hipocrisia social ajudava.
“Ah, mas eu olhei para o outro lado quando você foi humilhada porque não queria me aborrecer com o chefe. E se ele me demitisse?”
“Não disse nada quando ele foi agredido porque não sei que tipo de relacionamento eles têm.”
Essas eram as mais fáceis. Hoje, além de tudo, existe o medo. Da Morte. Da perda total.
Assumir a própria responsabilidade por se manter trabalhando com quem humilha. Se manter num relacionamento amoroso que já deu o que tinha que dar. A omissão frente a um comportamento errado. A responsabilidade de não gostar, de não cuidar de pessoas que por suposto deveríamos gostar e cuidar.
Para mim, está claro que não existe amor, amigo, filhos, pais, amantes, chefes, colegas perfeitos.
Quando o pai ou a mãe bate, humilha os filhos é fácil achar o erro. Mas e quando os pais deixam para lá chiliques, comportamentos potencialmente perigosos, prepotência? Durante o isolamento social.
Quando uma parte do casal apanha numa briga, quem bate está errado, dirão os amigos, os vizinhos, os psicólogos. E se a pessoa que apanha, que atura crises de ciúmes, injustiças absurdas não consegue viver sem o sexo gostoso que o (a) agressor (a) proporciona? Sem a compreensão e o apoio demonstrados quando o/a agredido/a está em desvantagem frente a estranhos?
É individual a responsabilidade pelas consequências do “só um tapinha não dói”, não é? Fico pensando, por que não interrompemos o que nos maltrata antes de atingir um limite onde só nos resta a ruptura?
Talvez porque não temos forças. Ou porque precisamos desesperadamente do que vem junto com o que existe de ruim. Existe ainda a hipótese de que papel de vítima atraia mais simpatia social do que o de responsável pelo rompimento de padrões.
Estou gostando de treinar minha própria responsabilidade nesse período. Musculação para a Alma.
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