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Diário da Peste 34

  • Foto do escritor: Sonia Rodrigues
    Sonia Rodrigues
  • 30 de abr. de 2020
  • 2 min de leitura

Diálogos Imaginários

Sou viciada no que Bakhtin chamou de Diálogo entre Verdades. Como a Peste limita o contato pessoal e como as pessoas estão com os nervos à flor da pele, o abastecimento de meu vício está difícil.

Hoje, dialogando dentro da minha cabeça com um hiper realizador a respeito de dois outros hiper realizadores, me ocorreu:

Tudo o que atribuímos ao Outro (e a nós mesmos) é interpretação. Quando eu digo que alguém procrastina o próprio talento porque a vaidade é tanta que só aceita praticar de Obra de Arte para cima, estou interpretando. Pode não ser por vaidade. Pode ser apenas preguiça.

O problema não é atribuir características às pessoas por interpretar o que elas fazem ou dizem. Porque interpretar considerando as evidências (o que elas fazem ou dizem) é uma ação que se sustenta.

O que derruba o diálogo é atribuir causas. Fulano faz isso porque é carente, inseguro, vaidoso. Isso é Super Interpretar (seguindo Umberto Eco). Fulano disse que não apresentou ainda o livro/argumento/roteiro porque o que escreveu não está maduro o suficiente. Porque não tem tempo para amadurecer o que escreveu.

Tenho evidências de que está rolando uma procrastinação. De que estou diante de um hiper realizador. O meu interlocutor imaginário também é hiper realizador. Vaidoso, fica escutando eu tagarelar. Escutar não dá trabalho.

Treat me sweet and gentle, when you say good night, just squeeze me, but please, don’t tease me.

Uma amiga me ligou triste com a indiferença de um ex-amor. No momento, eu escutava Diana Krall. Pausei a música pensando: o que abala quem gosta de gostar?

Aceitar sovinice e relutância. O que traduzindo é aceitar migalhas.

Causas? No meu passado que me condena, em geral, aceitei por gostar de conversa mole, subestimar minha capacidade de resistir à solidão, superestimar o desejo alheio. Por acreditar que migalhas não eram migalhas.

Concluindo meu diálogo imaginário: só podemos interpretar as possíveis causas das nossas ações. No fundo, no fundo, muita coisa na vida não depende de nós. Depende de desejos e decisões alheias.

 
 
 

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