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A vida não anistia

  • Foto do escritor: Sonia Rodrigues
    Sonia Rodrigues
  • 4 de jan. de 2023
  • 3 min de leitura

Podemos ser piores, mas não somos iguais a ninguém. Meu pai, Nelson Rodrigues, disse essa frase para minha mãe quando eu era criança e ela a repetiu muitas vezes durante minha infância e adolescência. Isso me ajudou a não sucumbir as influências da bolha da classe média na qual consegui entrar.

Lembrei dos meus pais ao ler a frase do marceneiro e guarda costas do "guru" do Ateliê em São Paulo na FSP:"Pra estar num lugar desse você tem que ter problema com a família, cara. Porque nenhum que está ali mora num barraco de favela. Não sabe nem o que é isso".

É verdade. Quem lutou a vida inteira contra adversidades - como o povo que mora nas favelas - não pagaria 1500 reais por mês para ser humilhado, espancando, abusado. Mas não é só um problema de classe. Existe aí uma influência forte da mentalidade norte-americana de "consenso", de "consentimento". As pessoas se culpam por ter entrado nessas furadas. O algoz usa o "consentimento" contra as vítimas. Aceitaram, deixaram, pagaram para estar ali. Pode ser, mas isso não exime os maus feitos do algoz.

Ser vítima ou não ser vítima das circunstâncias é também uma decisão espiritual. Aturei, aceitei, mas agora chega, não aceitarei mais porque não sou esse papel. Essa mentalidade não me representa.

Carlos Fuentes, escritor mexicano, disse numa entrevista: o povo norte-americano acredita em felicidade a ponto de colocá-la na constituição. Qualquer latino-americano sabe que a felicidade não existe. São momentos.

Eu acrescentaria que os momentos felizes têm que ser conquistados quando acreditamos e agimos em função do que valemos e dos nossos objetivos. Os jovens que entram nessas ciladas e escutam gurus - eu também já segui gurus - acreditam que são iguais aos que seguem as mesmas ideias. E se o grupo tem por consenso que ser humilhado é ser feliz, o grupo deve estar certo. Está aí o filme "Dogville" comprovando. Quem renega sua origem, sua cultura familiar caí nas mãos de qualquer um, nas pequenas e nas grandes coisas. Jesus Martin Barbero já alertava contra a pressa na América Latina em aderirmos aos valores alheios em seu livro "Dos meios às mediações". Jogamos o machismo latino fora e colocamos o quê no lugar? O politicamente correto?

Não acho que a mentalidade brasileira ou a mentalidade da minha família sejam impecáveis. Mas o homem que trabalhou 20 anos no ateliê tem razão: como é que se vive tanto tempo a mercê dos que nos maltratam?

Não sei a resposta. Já aceitei descalabros de todo tipo de gente por rejeitar minha origem. Por querer ser igual aos outros. Tenho compaixão pelos que acreditam que a maldade alheia não é maldade. Entendo que as pessoas têm o direito à defesa, mesmo a defesa de achar que as vítimas procuraram e aceitaram a maldade. As pessoas só não têm o direito de não pagarem pelo que fizeram. A vida não anistia.

Penso que talvez a única saída é traçar um caminho para sair de armadilhas, mesmo as que nós procuramos. Não é preciso matar o algoz como naquela inverossímil solução de Lars Von Trier em Dogville.

É recalcular a rota. Como estão fazendo as mulheres (sempre as mulheres) que estão denunciando o Ateliê. E aguentar a pemba. Como sabem todos os favelados que não lerão minhas palavras de admiração pela resiliência e sabedoria do povo brasileiro.

 
 
 

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